Como falar com a criança sobre a comida.

Antes de mais nada, vamos entender o nosso momento enquanto espécie. Vivemos em uma cultura em que crianças e adultos acham cada vez mais difícil se sentir bem com a alimentação e com o próprio corpo. Um fato que corrobora essa afirmação é que temos uma onda de transtornos alimentares e com início cada vez mais precoce. Hoje vemos muitas crianças sofrendo com obesidade. A anorexia que anteriormente era um transtorno que afetava indivíduos no final da adolescência e início da vida adulta, infelizmente tem aparecido nos consultórios cada vez mais cedo, temos notícias de crianças com 9 anos já com esse diagnóstico.

Tendo em vista esse momento da história, quero trazer uma reflexão, como estamos olhando para nossos corpos? Qual a relação que temos com a alimentação? É um olhar de julgamento? Esteriotipado?

Para falarmos em como conversar com as crianças sobre a comida, precisamos antes entender a nossa relação com ela. Estou constantemente me julgando? Ou me policiando? “Não posso comer isso porque vou ficar gorda”, “Olha minha barriga, estou enorme, não deveria ter comido!”, “Hoje não vou jantar, preciso ficar magra”. Agora sugiro que pensem nessas falas sob o ponto de vista da criança, que é literal, e não compreende subjetividade. É a partir daí que as crianças começam a ter uma preocupação com alimentação e o peso corporal. Essa preocupação pode levar a evitação de alguns alimentos, restrição de outros, o que é um caminho perigoso para um transtorno alimentar.

Alguns pais acabam ficando muito preocupados com a alimentação dos seus filhos, levando a promoção de alimentos “saudáveis” e uma demonização ou proibição de alguns alimentos “lixo”.


Mas qual é o problema disso?

Infelizmente a criança pode ficar obcecada por esses alimentos tidos como “lixo” e esconder, acumular e comer compulsivamente quando surge oportunidade. E também no outro extremo, não sabemos quais são as experiências e os desafios de uma criança em relação a comida. Existe um perigo particular em adultos de confiança chamarem um alimento de “não saudável” quando esse alimento pode ser um dos poucos que uma criança consegue comer. Por mais bem intencionado, isso pode causar danos reais a uma criança com problemas alimentares.


Então o que podemos evitar falar?

Categorizar alimentos como “ruim” ou “lixo”: “Doces fazem mal”, “Isso não é comida de verdade”. Crianças de 4 anos sentem culpa e vergonha pelos alimentos proibidos. Evite os rótulos: “Saudável e não saudável”, nesse caso o entendimento da maioria das crianças é “Bom ou ruim”. Falar coisas como : “Você só come porcaria, só come coisas ruins”, pode levar a criança a entender que ela é ruim porque só come coisas ruins. Lembrem-se : a criança é literal e egocentrada. Percebem o perigo?

Não expressar julgamento sobre a alimentação ou apetite da criança, incluindo ELOGIOS: ” Parabéns Maria, você comeu tudo”, “Olivia come super bem, mas o João além de comer pouco é viciado em açucar”. Mesmo quando falamos bonitinho ” A Joana é uma formiguinha”. A criança não sabe quem ela é, ela vai construindo uma imagem de si mesma a partir do que nós cuidadores vamos falando pra ela.

Não usar a vergonha ou medo para fazer a criança comer: “Se você não comer a salada não vai crescer”, “Se não parar de comer doce vai ficar doente”.

Pressionar, subornar ou recompensar para experimentar novos alimentos.

Todos os exemplos acima afastam a criança de uma relação saudável e funcional com a comida.


O que falar então?

Fale sobre os alimentos com prazer. Frutas e legumes também são gostosos. Normalmente demonstramos prazer ao comer um chocolate ou uma fatia de torta, mas não fazemos o mesmo ao comer abobrinha ou brócolis. Lembra que a criança é uma esponjinha? E está nos observando o tempo todo e modelando nosso comportamento?

A chave para uma boa nutrição é oferecer variedade sem forçar a criança comer.

Falar sobre a comida de forma apropriada a idade. Uma criança pode entender que banana é uma fruta, mas pode não entender a palavra “proteína”.

Foque na alegria, na permissão e no equilibrío: “Temos muita sorte de poder comer tantas comidas maravilhosas ; pizza, ervilhas, feijão e bolo de chocolate.”

Trabalhe com a suposição de que todos os alimentos podem fazer parte de uma ingestão equilibrada, incluindo guloseimas.

Apoiar a regulação interna, usando a sabedoria do corpo para orientar o quanto comer: “SUA BARRIGA ESTÁ CHEIA OU VOCÊ QUER MAIS?” “VOCÊ ESTÁ COM FOMINHA, FOME OU FOMONA?”

Forneça oportunidades para atividades físicas divertidas.

Concentre-se na saúde, força, capacidade e no prazer do movimento – não no peso. Respeite a diversidade dos tamanhos corporais. Deixe seus filhos ouvirem: “As pessoas vêm em todos os tamanhos”.

Crie e celebre tradições alimentares com as crianças.

Procure fazer refeições em família sempre que possível. As refeições em família estão ligadas a uma melhor nutrição, peso estável e alimentação menos desordenada. A melhor forma da criança aprender a comer é vendo pais saboreando os alimentos que querem que a criança coma.

E aí como está relação da sua família com a alimentação?

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